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Entrevista a Amadeu Cachamola, no Independente de Cantanhede
Amadeu Cachamola - As vacas acabaram todas, agora os porcos estão a acabar. É uma era que termina

O dia em que Amadeu Cachamola falou ao Independente der Cantanhede foi um dia de trabalho diferente daqueles que nos últimos anos veio a conhecer. Fala-nos com os minutos contados. Afinal, um porco doente aguarda a sua visita e o seu auxílio.

Momentos como este são já raros nos dias de Amadeu Cachamola. Longe vão os dias em que tinha até de se levantar a meio da noite para socorrer os variados animais com os mais diversos problemas. Hoje são pouco os pedidos de ajuda que chegam ao alvitar de 83 anos, mais de 60 dos quais dedicados a esta atividade.

Amadeu Cachamola, o nome por que Amadeu Silva é mais conhecido, tinha pouco mais de 20 anos quando começou a trabalhar nesta área. Primeiro vieram os cavalos, durante o serviço militar. Regressado a casa, começou a trabalhar como alvitar, primeiro por conta de outrem, até que por fim se estabelece por conta própria no auxílio a todo o tipo de animais.

Pensar em abandonar o trabalho não é para já uma opção para este homem natural da Pocariça, há várias décadas radicado nas Arrôtas.

O que é um alvitar?

Um veterinário é formado e um alvitar é um enfermeiro do gado.

Como é que aprendeu a fazer este trabalho?

Fui para a tropa, para a Escola Prática de Cavalaria, em Torres Novas e fui para ferrador. Depois de vir de ferrador, começaram aqui a chamar-me, comecei a capar uns porcos, comecei a ver um gado doente e por aí começou.

Teria que idade nessa altura em que começou?

Tinha 21, 22 anos. Depois tive um professor grande, que havia poucos a saber mais do que ele, que foi o Joaquim Tereso, na Tocha. Trabalhei lá 17 anos para ele e aprendi. Foi ele quem me ensinou.

Na tropa então não aprendeu muito desta arte.

Foi mais ao de leve. Lá só tínhamos cavalos. Dávamos as injeções aos cavalos quando era preciso. Éramos 10 ferradores e tínhamos lá 600 cavalos, em 1948, não era brincadeira.

O primeiro contacto com os animais foi então na tropa, mas só começa a trabalhar mais a sério na Tocha. Começou logo aí como alvitar?

Sim. Lá só se ferrava nos dias de feira  e depois havia sempre gado doente.

Tinha quantos anos quando começou a trabalhar lá?

Tinha 24, 25 anos. Depois a prática é que me ensinou. É a continuação do serviço que ensina.

De que animais tratava?

Porcos, vacas, cães, cabras. Todos os animais.

Mas levavam-lhos lá à Tocha ou tinha de ir ao encontro deles?

Não! Tínhamos que ir, de motorizada. Tinha dias de andar mais de 100 quilómetros, de casa em casa. Contando, tinha mais de três mil fregueses. E não era só na Tocha. Era na Tocha, Cova da Serpe, Caniceira, corríamos tudo ali em volta.

Porque é que as pessoas, em vez de chamar o veterinário, preferiam chamar o alvitar?

Porque tinham mais confiança na gente.

Porquê?

Elas é que sabiam porque era.

Quais eram as situações para que era mais vezes chamado?

Para tudo. Era crias para tirar, era vacas mancas, eram porcos doentes, era de tudo.

Apanhou alguma vez uma situação mais difícil de resolver?

Não! Estávamos batidos e a gente mal punha os olhos, já sabia o que eles tinham. Às vezes vêm aqui a casa perguntar o que é que a porca tem e digo "é isto assim, vou já lá." Daqui já levam a lição sabida do que a porca tem.

Nem precisa de ver o animal..

A prática é que faz tudo. Mas é preciso ir lá. Temos que lá ir ver para verificar.

Mas só de ouvir os sintomas já sabe o que é?

Então pois, o tempo é que nos fez. E olhe que é raro enganar-me. Nem lhe quero dizer o que passei já com três médicos por causa de vacas. E a minha é que valeu, não foi a deles.

Esteve então 17 anos a trabalhar na Tocha e depois?

Depois fiquei a trabalhar por minha conta.

Qual é a grande diferença de um tempo para o outro?

Muita diferença. Então há mais de 30 anos que trabalho por minha conta.

E ainda vai fazendo alguns trabalhos?

Vou ainda agora para o Casal de Cadima ver uma porca. Mas está acabado.

Hoje já não há muitas pessoas a procurar este trabalho?

Não. Só o Bolho tinha mais de 200 vacas, Cadima tinha cinco ordenhas e não há uma. As vacas acabaram todas, acabou o serviço. Agora os porcos estão a acabar. É uma era que acaba.

Para que animais é que ainda o vão chamando?

É praticamente porcos. Para onde me chamam, vou.

Já ensinou alguém?

Não tenho ninguém a quem ensinar. Os filhos não querem e têm razão. O que é que iam fazer agora? Antes era de dia e de noite. Quantas vezes é que estava na cama a dormir e chamavam-me para tirar crias e agora? Acabaram as vacas, não há crias para tirar. Era rara a noite que não tinha que me levantar.

Os trabalhos que foi fazendo e que ainda hoje faz são todos dentro do concelho ou é chamado para fora?

Para fora também. Tenho ido ao concelho de Montemor, a Arazede.

Conhece mais algum alvitar?

Há aqui o Manel em São Caetano e há um Lapa, que é o Abel. Os mais próximos são estes.

Então ainda vai havendo trabalho.

Eles também se queixam que têm dias em que não fazem nada. Há dias em que não se faz mesmo nada. Antes dava para nós todos. Agora, um nesta volta toda fazia o serviço e ainda lhe sobrava tempo.

Ainda se lembra da primeira vez que foi chamado para fazer um trabalho?

Já não, já foi há tantos anos, há 60 e tal anos.

E houve algum caso que lhe tenha ficado mais marcado, por ser alguma situação mais complicada?

A gente já sabe quando é que a coisa corre bem e corre mal. É muito raro a gente enganar-se.

Nunca pensou seguir outra profissão que não este?

Andava a cavar vinha, depois comecei a tratar o gado e isto era melhor.

E não havia outro trabalho que gostasse de ter seguido, ou gostava mesmo dos animais?

Gostei disto. Quem não gostar da arte, não vale a pena pegar-lhe. Não aprende nada, cada vez sabe menos.

E depois de tantos anos, ainda não pensou em abandonar de vez?

Não.



Fonte: www.independentedecantanhede.com, Cátia Figueiredo

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