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Memória do tempo
Olha-se lá para o alto e o que se vê? Um sino, símbolo de um tempo religioso, de um ritmo lento, ora anunciador de festa ora com um timbre sinistro - de rebate. Dele nascia uma longa corda, donde, com um movimento mais sabido que treinado, se accionavam as frágeis subjectividades diárias de quem o ouvia.

O olhar sobe um pouco mais e encontra um relógio de torre, símbolo de um tempo abstracto, mecanicamente medido e característico duma metria impessoal - nunca aquele relógio tocou a rebate. Ao que parece terá sido comprado no Porto, em 1910, por subscrição pública, pela elevada quantia de quatrocentos, entretanto falecidos, escudos.

Ainda ontem os agricultores largavam trabalhos e enxadas pelas trindades, quer dizer, pela hora do toque das Ave-Marias, numa espécie de tempo comunitário e partilhado ("Ó Maria! Já ôbistes as trindades?..."). Hoje, vive-se quase exclusivamente com o tempo individual do relógio, ainda que ambos convivam na igreja, ao fundo da rua, numa repetitória associação.

A diferença fundamental não pode, contudo, escapar: se o relógio é um instrumento visual, o sino é um instrumento musical, que debita música - existe aliás um instrumento musical formado de sinos, o carrilhão, e, em abono da verdade se diga, do qual Portugal tem excelentes instrumentistas. A música do sino de torre tem a sua melodia especial e um timbre há muito conhecido; já muitos dançaram ao seu ritmo.

E qual dos dois determina mais o tempo diário dos pocaricenses? Qual o mais deteminante na cronografia da Pocariça? Diria que nenhum desses dois, nem mesmo quando se passa perto deles. Há relógios por tudo quanto é sítio: na cozinha, no bolso, no pulso, no telemóvel, no carro, na televisão, no computador... Se há sítio em que o relógio passa a maior parte do tempo é na cabeça de cada um. Inevitável.

Mas continuemos o percurso: uma volta pelo adro e logo encontramos na fachada um relógio-de-sol, aliás, com um bolachudo sol em fundo, um ponteiro a pingar-lhe do nariz e os raios a terminarem com as rectas das horas. Também este um instrumento de medição do tempo, da hora, naturalmente limitado pela rotação diária da Terra.

Dos três medidores de tempo que a igreja matriz pocaricense tem, no seu exterior, o menos útil é o relógio-de-sol, parece apenas servir de decoração arquitectónica, e ainda assim apenas para aqueles que, na lenta passagem para a celebração dominical ou para alguma angustiada visita ao campo-santo, nele reparam com alguma displicência.

Falta ao relógio-de-sol a mais valia do relógio mecânico: a precisão. A altura a que ele está do chão, quiçá determinada pela necessidade de captação de luz, impede um cidadão (digo bem cidadão, um aldeão não perde a qualidade de cidadania) de saber com precisão a quantas anda; saberá, quando muito, que são mais ou menos sete e meia, nunca que são sete horas e trinta e dois minutos. E como se acerta um relógio-de-sol?

Não deixa ainda de espantar que um só monumento reuna três medidores distintos de tempo. Não há na freguesia - ao que sei - nenhum outro monumento com tantos e tão variados medidores de tempo. Governa-se uma comunidade tomando-se-lhe o ritmo e captando-se-lhe o tempo, mas os tempos - na eloquente versão camoniana - mudam as vontades; a Pocariça não será decerto excepção.

E as horas passam e passam dias, passam meses: e eis que mudamos de ano, unidade maior do sistema essencial de medição do tempo humano, aliás, comum a toda a ecúmena. Também o ano é uma medida de tempo baseada no Sol, centro do sistema planetário que habitamos. O Sol, assim regulador do tempo, está no centro, assim como no centro de cada indivíduo está o tempo, o seu tempo individual.

Não são já os relógios ou os sinos que medem os anos, mas antes os calendários, assim chamados a partir da palavra latina calendarium que significa "livro de contas", estando a justificação de tal designação no facto dos juros dos empréstimos, em tempo romano, serem pagos nas calendas, o primeiro dia dos meses romanos (hoje alguns são-no apenas nas calendas gregas...).

Reconheça-se, contudo, que para os humanos a medida certa é a vida, sem mais detalhes. Aquela que no início do ano se quer nova: ano novo, vida nova, sem dúvidas nem espinhas. Continua a haver, porém, a vida velha, a dos anos velhos: o tempo maior da memória, sem medida, e sem a qual não somos nada. Sem a qual não somos. Sem a qual somos nada. Sem a qual não. Nada.



Fonte: J. Galhano

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