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Miguel Torga 100 anos |
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Introdução |
Biografia | Obra
do escritor |
Imagens | Torga em Linha
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| Ser a Corda do Arco |
Adolfo Correia da Rocha nasceu em S. Martinho da Anta em 12 de Agosto de 1907,
comemorando-se agora os cem anos do seu nascimento. Para além de poeta,
romancista, contista, diarista, dramaturgo e ensaísta foi ainda um claro
interventor cívico e um combatente pela democracia futurante, enraízada na
história.
A aldeia de S. Martinho da Anta, concelho de Sabrosa (distrito de Vila Real),
viu nascer, filho de agricultores, aquele que viria a ser Miguel Torga, terra
que lhe providenciou uma infância dura, para lá do Marão. Seu pai, porém, não
lhe deu em alternativa as fragas, mas antes, à escolha, o seminário de Lamego ou
o Brasil de seu tio.
Após um breve ano de seminário e de algumas participações como ajudante na missa,
emigra para o Brasil em 1920, com treze anos, onde trabalha numa fazenda como
capinador, na apanha do café, a mungir as vacas, a “procurar pelos matagais as
porcas e reses paridas” e a caçar cobras, num suplício, se suplício foi, que
duraria cinco anos, até ter dezoito de idade.
Seu tio, vendo nele o brilho do entendimento decide suportar as despesas com os
seus estudos de Medicina em Coimbra, onde ingressa em 1928; com vinte e quatro
anos de idade, estavam concluídos estes estudos, especializando-se mais tarde em
otorrinolaringologia.
Ainda antes dos estudos académicos, logo em 1927, junta-se a homens como José
Régio, Adolfo Casais Monteiro, João Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca, Carlos
Queiróz e Vitorino Nemésio para fundar o grupo da Presença, no que eram
já evidentes as suas tendências modernistas, revelando uma opção estética pela
liberdade e criatividade na representação literária.
A sua reconhecida têmpera individualista e intransigente – visível na sua
escrita autobiográfica, gravada no seu rosto – haveriam de o levar à
incompatibilidade com este grupo artístico, mas as suas ideias apareciam já em
papel com a sua colectânea de poemas Ansiedade. Ansiedade de quê?
Escreveria: “Canta dentro de mim a confiança / Da grande multidão silenciosa /
Que me rodeia. / Move-se uma epopeia / Na rasa solidão do meu destino.”
Estabelece-se como clínico geral em S. Martinho da Anta e depois segue para
Leiria, mas, por causa das tipografias, estabelece-se em Coimbra onde casaria
com a belga André Cabrée, a quem avisa desde logo: “vou tentar ser bom marido,
cumpridor. Mas quero que saibas, enquanto é tempo, que em todas as
circunstâncias te troco por um verso.” Se nisto há amor da poesia, também tem o
carácter subversivo que seria reflectido mais tarde, em 1958, no Orfeu
Rebelde: “Nasci subversivo / A começar por mim – meu / principal motivo /
de insatisfação.”
Em 1931, publica o seu primeiro livro de prosa, Pão Ázimo, onde se pode
ler, por exemplo, que “Os bois caminhavam lentos, olhando as relhas antigas
cavadas na fraga. / De rabo entre as pernas, mesmo debaixo das chedas vinha o
rafeiro da casa chamado Mondego.” Continuaria em S. Martinho da Anta?
Possivelmente.
Um ano depois de concluir os estudos, em 1934, adopta o pseudónimo Miguel Torga,
com a publicação de nova prosa, intitulada A Terceira Voz. Ele próprio
publicava as suas obras, em edições de autor com papel o mais barato possível,
no que dizem mostrar uma faceta menos agradável: a forretice. Comprava livros
trocando exemplares dos seus, quase não oferecia livros a ninguém e de Leiria a
Coimbra viajava sempre em terceira classe; e televisão só comprou depois do 25
de Abril. Certo é que deu consultas médicas gratuitas.
As tertúlias em Coimbra prosseguiam, mas tornara-se desde cedo severo crítico da
Universidade, onde via serem recusadas a originalidade e o “pensamento
subversivo” e em que se vivia da “mistificação da borla e capelo”. Aliás,
cometeu o acto criminoso, segundo as leis da praxe, de efectuar o seu acto de
formatura com “fato banal”. E formou-se.
A atitude cívico-subversiva de Miguel Torga observar-se-ia ainda na forte
oposição ao “Estado Novo”, valendo-lhe a prisão no Aljube, pela PIDE, assim como
as suas obras seriam apreendidas por essa polícia política. Ainda que presidindo
a alguns trabalhos socialistas, diria depois que “meu partido é o mapa de
Portugal”. Os acontecimentos em torno do 25 de Abril, libertadores, afastam-no
da política, da qual diz ser uma aflição: “A política é para eles (os políticos)
uma promoção e, para mim, uma aflição”.
Os famosos contos intitulados Os Bichos, a “minha pequena Arca de Noé”,
onde encontramos o cão Nero, o galo Tenório e o melro Farrusco entre outra fauna
igualmente interessante, seriam publicados em 1940, livro depois traduzido para
alemão, basco, castelhano, japonês e romeno. Em 1937, haviam já aparecido Os
Dois Primeiros Dias da Criação do Mundo. O Terceiro Dia e o Quarto Dia
seriam publicados nos dois anos seguintes, ao ritmo de um por ano; o Quinto
e o Sexto viriam a lume já em tempo democrático.
Em 1941, seriam publicados o primeiro volume do Diário, que chegaria a
ter quinze volumes na edição do autor, e os lidos e relidos Contos da
Montanha; em 1944 surgem os também celebrados Novos Contos da Montanha. A
sua obra literária cresceria ainda em quantidade e em género, com incursões pelo
romance (A Vindima), pelo teatro (O Paraíso, Sinfonia, Mar, Terra
Firme) e com novos poemas (Nihil Sibi, Cântico do Homem, Câmara Ardente,
entre outros textos poéticos).
O reconhecimento do seu valor artístico dispensaria prémios, mas foi proposto
logo em 1960, e mais tarde, ao Prémio Nobel; não o receberia, mas segundo Jorge
Amado estaria, ele próprio, acima do Nobel. Ainda assim, recebeu o Prémio Diário
de Notícias (1969), o Grande Prémio Internacional de Poesia das Bienais
Internacionais de Knokke-Heist (1976), o Prémio Internacional de Poesia (1977),
o Prémio Morgado de Mateus (1980), o Prémio Montaigne (Alemanha, 1981), o Prémio
Camões (1989), o Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores
(1992) e o Prémio da Crítica (1993). Não foram poucos; teve, pois, a sorte do
reconhecimento em vida.
Diz-se que Miguel Torga morreu em 17 de Janeiro de 1995, em Coimbra, mas várias
vozes se levantam contra esta redução ao factual, ao canastro. O notável
trasmontano afiançou que “o homem é, por desgraça, uma solidão: Nascemos sós,
vivemos sós e morremos sós”. É de crer que, agora, não esteja só. Ele próprio o
entreviu quando escreveu no seu Diário, assim:
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Quando, por fim, o mundo for só nosso
Sem reparos alheios,
E os meus versos a fiel legenda
De cada hora,
Saberás, musa, claramente,
Como a vida dura
Para além da macabra certidão
Da realidade.
Pede, pois, com fervor,
À santíssima senhora
Da boa morte
Que, sem mais sofrimento,
Piedosamente,
Me receba nos braços rejelados,
E nos permita ser eternamente
Felizes e secretos namorados.
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